O pânico renasce

Entre os anos 80 e 90, um surto de pânico moral invade corações e mentes pelo mundo. Um medo generalizado do demônio e seus asseclas, incentivado pelo sensacionalismo televisivo, leva a diversos casos de perseguição de  inocentes e julgamentos equivocados. E hoje, do fundo da internet, vemos surgir uma onda semelhante de medo delirante, só que dessa vez, com objetivos claros. Hoje vamos falar um pouco sobre o pânico satânico.

Dica:

Terra Medeia – bityli.com/terra-medeia

Referencias:

It’s Time to Revisit the Satanic Panic – The New York Times

Site da temporada “O Caso Evandro” – Projeto Humanos

Pizzagate: o escândalo de fake news que abalou a campanha de Hillary – Super Interessante

O crime é divino: a parceria entre tráfico, milícias e igrejas pentecostais na periferia do Rio – Carta Capital

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Poesia do episódio:

“O Medo”, de Carlos Drummond de Andrade

Em verdade temos medo.Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

Ficha técnica:

Roteiro: Carlos Sammartin;

Poesia: “O Medo”, de Carlos Drummond de Andrade;

Narração: Carlos Sammartin;

Trilha sonora:  “Supermoon”, de Ikebe Shakedown, “Geiger Festival”, de Fear Konstruktor, “Statues in Cemetery General”, de Humanfobia  e “Mars”, de Nctrnm;

Gravação, edição e mixagem: Estúdio D@glitch;

Arte: Estúdio D@glitch;

Produção: Ruído Cultural.  

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